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O que acontece na infância não fica na infância

Os primeiros anos de vida são de aprendizado puro, com o cérebro funcionando de forma excepcional. Ajude a criança a usufruir de todas as possibilidades




Um grito agudo seguido de um choro forte e a vida muda para sempre. O topo daquela cabeça tão pequenina ainda cheia de vernix, a boquinha buscando no seio o alimento e o aconchego. O colo que acalma qualquer queixa. A mãozinha que encontra a minha. Quando minha primeira filha veio ao mundo, o descobrir-se mãe foi algo surreal.


Foi como um mergulho profundo em águas inexploradas. Até via a superfície, de fora, como numa vitrine, mas a imersão me permitiu enxergar tudo que estava ali, submerso. Percebi o tamanho do presente e da responsabilidade que estavam em minhas mãos.


Vivenciar os primeiros mil dias de uma vida inteira é uma experiência única. O primeiro sorriso, a primeira gargalhada, a primeira palavra, os primeiros passos, as primeiras conquistas. São tantos “primeiros”… Várias coisas que acontecem no início dessa jornada importam muito mais do que se imagina! É sobre isso que quero falar com você.


Os primeiros anos são indiscutivelmente os mais importantes. É nesse período que o cérebro se forma e a criança cresce e se desenvolve como em nenhum outro momento. E seu potencial de aprendizado não pode ser ignorado.


Um economista chamado James Heckman, vencedor do prêmio Nobel, chegou a mostrar que, para cada dólar investido na infância, há um retorno de sete dólares na vida adulta. Seu estudo foi chamado de Equação de Heckman, e expõe como a qualidade do desenvolvimento na primeira infância produz benefícios em longo prazo.


A verdade é que os bebês evoluem, nessa fase, de um jeito que jamais acontecerá novamente. Para ter ideia, o cérebro deles faz de 700 a 1 000 novas conexões por segundo. São os chamados “períodos sensíveis”, na qual esse órgão está mais apto a aprender. Cada experiência que a criança vive é interpretada como uma sinapse cerebral. E, quanto maior a qualidade dessas vivências, mais conexões irão acontecer.


Emoções também contam

Sabe aquele sorriso que você dá a seu filho quando ele sorri para você? E a forma como você o toca, segura no colo, acaricia as mãozinhas e os pezinhos e conversa com ele? tudo isso contribui para o desenvolvimento do bebê de forma completa. A construção de um vínculo forte, amoroso e saudável é fundamental para o surgimento daquilo que chamamos de inteligência emocional.


Além disso, todas as áreas de desenvolvimento estão fortemente interligadas. Ao sorrir, uma criança está correspondendo à linguagem que seus pais usaram desde que a pegaram no colo pela primeira vez. E, assim, através da imitação de um sorriso, ela ganha atenção. A partir da troca de afeto, o pequeno aprende ainda gestos e palavras. Tanto que, aos dois anos de idade, ele tende a falar diversas expressões e até frases. Afinal, todo um repertório de diferentes estímulos aconteceu até então, viabilizando essa competência.


O carinho e o contato físico funcionam como modeladores cerebrais, tornando até mesmo o sistema imunológico mais forte. Por isso, não devemos subestimar o poder de um simples abraço. Veja: um único gesto como esse faz a gente liberar ocitocina, um hormônio que traz diversos benefícios ao corpo. Na contramão, um toque carinhoso também ajuda a diminuir os hormônios de estresse.

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